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Feminismo pra quem não se identifica com o feminismo | Babilônicas

Você acredita em igualdade mas não se diz feminista? Entenda por que isso acontece, o que o feminismo realmente propõe e por que essa conversa importa — sem patrulha e sem rótulo.

Feminismo pra quem não se identifica com o feminismo | Babilônicas

Feminismo pra quem não se identifica com o feminismo

Você acredita que mulheres merecem o mesmo salário que homens pelo mesmo trabalho? Acha que nenhuma mulher deveria apanhar do parceiro? Defende que meninas devem ter acesso à educação? Acredita que uma mulher pode ser presidente, CEO, astronauta, o que ela quiser?

Parabéns: você é feminista.

"Mas eu não me considero feminista."

Tudo bem. Vamos conversar sobre isso.

Por que tanta gente rejeita a palavra

Existe uma distância enorme entre o que o feminismo é e o que muita gente acha que é. E essa distância não é acidental — ela foi construída.

Ao longo dos anos, o feminismo foi caricaturado como um movimento de mulheres raivosas que odeiam homens, que querem destruir a família, que são contra a feminilidade. Essa caricatura serviu a um propósito: afastar mulheres de um movimento que beneficiaria justamente elas.

E funcionou. No Brasil, pesquisas mostram que a maioria das mulheres concorda com pautas feministas — igualdade salarial, fim da violência, autonomia sobre o corpo — mas uma parcela significativa não se identifica como feminista. O conteúdo é aceito. O rótulo, não.

O que o feminismo realmente propõe

Em sua essência, feminismo é a ideia de que mulheres são seres humanos completos que merecem os mesmos direitos, oportunidades e dignidade que os homens. Só isso.

Não é sobre ser superior. Não é sobre odiar homens. Não é sobre abandonar a maternidade ou a feminilidade. É sobre ter a liberdade de escolher — ser mãe ou não, casar ou não, trabalhar em casa ou fora, usar saia ou calça, ser doce ou ser firme.

O feminismo lutou por conquistas que hoje parecem óbvias: o direito ao voto (que no Brasil as mulheres só conquistaram em 1932), o acesso à educação superior, a lei do divórcio, a Lei Maria da Penha, a licença-maternidade. Cada uma dessas coisas que você usa no dia a dia existe porque mulheres antes de você lutaram por elas.

"Mas eu não concordo com tudo"

E não precisa. Feminismo não é um bloco monolítico. Existem correntes diferentes — feminismo liberal, radical, interseccional, decolonial, negro, marxista, ecofeminista. Eles discordam entre si o tempo todo.

Você não precisa concordar com cada opinião de cada feminista pra se beneficiar das conquistas do movimento. Assim como você não precisa concordar com cada lei pra se beneficiar da democracia.

O problema não é discordar de aspectos específicos. O problema é rejeitar a ideia inteira por causa de uma versão distorcida dela.

A patrulha que afasta — e a autocrítica necessária

Vamos ser honestas: o próprio movimento feminista às vezes dificulta a entrada de novas pessoas. Existe uma cultura de patrulha, de "cancelamento", de julgamento por não usar o termo certo ou não conhecer a teoria certa.

Uma mulher que está descobrindo o feminismo não deveria ser recebida com "você está errada" — deveria ser recebida com "que bom que você está aqui, vamos conversar".

A Babilônicas acredita que consciência se constrói com acolhimento, não com intimidação. Ninguém nasceu sabendo tudo. E ninguém muda de ideia sendo atacada.

O feminismo que a Babilônicas pratica

Não é teórico. É prático. É falar de dinheiro porque independência financeira é liberdade. É falar de corpo porque autonomia corporal é direito. É falar de saúde mental porque mulheres sobrecarregadas merecem cuidado. É falar de carreira porque ambição feminina não é defeito. É falar de maternidade porque ser mãe não deveria ser sinônimo de se anular.

É também ter a humildade de reconhecer que o feminismo tem pontos cegos. Que a experiência de uma mulher branca de classe média é diferente da de uma mulher negra da periferia. Que uma mulher cis vive realidades diferentes de uma mulher trans. Que feminismo que não é interseccional não dá conta da realidade.

A conversa que importa

Se você não se identifica com o feminismo, não estou aqui pra te convencer. Estou aqui pra te convidar a pensar sobre por quê.

Porque muitas vezes, a rejeição não é ao conteúdo — é à embalagem. E se a embalagem te afasta de algo que te protege, talvez valha a pena olhar de novo.

Você não precisa usar a palavra. Mas os direitos que ela representa? Esses você usa todo dia.


A Babilônicas acredita que consciência social se constrói com conversa, não com confronto. Este artigo é um convite ao diálogo aberto.

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